Pessoas com uma mentalidade desbravadora e divertida como a tua e a do Saimon, eu espero ter por perto até as últimas etapas de oxidação destas células adubadas pelo fast food.
Demorei para poder amadurecer a ponto de conseguir retornar ao caminho da evolução emocional, aquele que nos torna pessoas queridas e procuradas pela simpatia que exercem, e por isto mesmo, pela empatia que dominam.
Mais uma vez, com a chantagem emocional que me é característica, eu lhe mando lembranças saudosas de quem possui um caráter tendencioso, mas que foi atenuado em sua natureza bélica por pessoas como você, o pastor, Saimon, Lenon, e demais camaradas cujos determinismos sincronizaram com o meu em determinados momentos.
Para ter uma perspectiva de futuro sendo chamado de tio pelos filhos do Saimon, e quiça seus, se os tiver, estou saindo daquela minha condiçao patologica de desempregado, meu caro.
Estou estagiando, faz três meses, como arte finalista em uma agência de publicidade, ajudando(quando posso) a produzir alguma arte conceitual, coisa que fui internalizar de forma completa aqui na propaganda. Arte conceitual, para mim, eram aqueles panfletos do construtivismo russo, e era só... bem, até as topeiras veem a luz, afinal, por vezes, cavam seus buracos para cima.
Mas na maioria das vezes apenas finalizo os anuncios, panfletos e folderes em seus devidos formatos.
Esta sendo prazeiroso.
Gostaria de algumas linhas com notícias suas.
Grande abraço!
segunda-feira, 31 de março de 2014
quarta-feira, 26 de março de 2014
quinta-feira, 4 de abril de 2013
O Corvo
- Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais. - É só isto, e nada mais."
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais, - Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais. - É só isto, e nada mais".
E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais. - Noite, noite e nada mais.
A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais. - Isso só e nada mais.
Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais. - "É o vento, e nada mais."
Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais, - Foi, pousou, e nada mais.
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais." - Disse o corvo, "Nunca mais".
Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais, - Com o nome "Nunca mais".
Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais". - Disse o corvo, "Nunca mais".
A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais - Era este "Nunca mais".
Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais, - Com aquele "Nunca mais".
Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais, - Reclinar-se-á nunca mais!
Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!" - Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais! - Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!" - Disse o corvo, "Nunca mais".
"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!" - Disse o corvo, "Nunca mais".
E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais, - Libertar-se-á... nunca mais!
- (Edgar Allan Poe - Tradução de Fernando Pessoa)
- Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
Les idées claires
[Les idées claires - René Magritte]
Este quadro de Magritte me encantou muito, pois
lembrei muito de um argumento que aprendi sobre idéias e conceitos em
arquitetura. Falo contra o meio termo, atitude sem coragem, graça e
força, especificamente no ato criativo de um projeto. A pintura é claríssima:
Um fluido é um fluido, prolifera em todos os lugares do recipiente, sua
ondulatória atinge todas as porções do espaço que o contém, o líquido conecta
todos os respiros e dobras do recipiente imerso em sua extensão. O monólito,
por sua vez, é, por definição, unitário, denso e pesado, ele concentra toda sua
matéria em um corpo inerte que insiste rígido a mutante paisagem a sua volta. Já
a leveza, representada pela nuvem, eleva-se e paira sobre o quadro, livre e
solta desenvolve elegante imagem moldada ao gosto dos ventos...
Constantemente reflito e discuto a problemática
do ‘conceito’ em arquitetura. Diferentemente da definição Deleuziana, que o
reivindica como matéria da filosofia, nesta disciplina o tema sugerido já na
pós-modernidade define-se como uma idéia forte que orienta todo o esforço
projetual em concebê-la numa forma física e temporal, uma arquitetura,
profundamente fiel e clara em relação à concepção original. Projetar desta
maneira é encantador, pois nestes trabalhos persegue-se a unidade e totalidade
como resultados, uma vez que a valorização das qualidades do projeto ou do
lugar para que ele destina-se, bem como as soluções dos problemas
identificados, partem dos mesmos gestos, de maneira possivelmente resumida,
simples e potente.
terça-feira, 1 de maio de 2012
O Porto, 02 de Maio de 2012.
[Elephant man, the wave, once upon a time in America,
one flew over the coockoo’s nest.]
Em determinados tempos convém
registrar nossas percepções com a finalidade de perceber as mudanças que nos
acometeram pela escolha de um ou outro percurso, ou ainda averiguar para onde tal
escolha nos encaminha. Não começa tão bem, por acaso deveria trabalhar mais
enquanto assistia a estas quatro películas, as últimas que vi. Pensar nisso lembra-me
da primeira avaliação da disciplina de projeto IV, em outubro de 2011, quando
ironicamente o arquiteto e professor Francisco Vieira de Campos disse que eu pertencia
ao grupo dos que tinham ideias demais e “andava a ver muitos filmes”. “Espero
que ao menos sejam os bons” respondi, defendendo a metamorfose de contentores
(containers) em escola de dança, um conceito que me brotou na moranga por
questionar a literalidade ingênua e óbvia de ouvir tanto dizer que a dança
é movimento.
Provavelmente é uma necessidade
de afirmar algo de positivo a substituir um progresso idealizado, mas gostei
muito, por diferentes motivos, de cada um destes filmes, que bem ou muito bem
produzidos tem em comum o fato de tratarem suas histórias com os contornos severos
e despidos da realidade. Heróis ou vilões, como ninguém além do acaso poderá
julgar um chofer de taxi ou a criada de toda uma vila de cães, a vida segue e
acordaremos amanhã para continuar ou não fazendo o que é simplesmente nossa
obrigação ou por ventura até nos apeteça um bocadinho.
Como não posso deixar de
mencionar a arquitetura, um pouco a moldar um pouco em resultado do que eu
desenvolvia, encontrei certas ressonâncias entre a concepção de arquitetura do Zumthor
e o processo criativo de Kafka descrito por Deleuze e Guattari. Tem a ver com a
nudez da realidade e algum bom cinema por passarem todos distantes de se pretenderem
épicos e paradigmáticos. Muitíssimo menos que isso, sempre que possível esvaziam-se
de todos os efeitos e até de seus significados, lidam apenas de suas próprias
ferramentas, pormenores e linguagens, deixando o conteúdo de suas obras sempre maleáveis
a lógica e a sorte impossíveis de condensar daquilo que chamamos de vida. Tente
criá-la ou a delimitar, e tu serás pai de Frankenstein ou um peixe preso no
vento.
sábado, 17 de março de 2012
Era uma vez um pintor que tinha um aquário e, dentro do aquário, um peixe encarnado. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor encarnada, quando a certa altura começou a tornar-se negro a partir – digamos – de dentro. Era um nó negro por detrás da cor vermelha e que, insidioso, se desenvolvia para fora, alastrando-se e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário, o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.
O problema do artista era este: obrigado a interromper o quadro que pintava e onde estava a aparecer o vermelho do seu peixe, não sabia o que fazer agora da cor preta que o peixe lhe ensinava. Assim, os elementos do problema constituíam-se na própria observação dos factos e punham-se por uma ordem, a saber: 1.º – peixe, cor vermelha, pintor, em que a cor vermelha era o nexo estabelecido entre o peixe e o quadro, através do pintor; - 2º - peixe, cor preta, pintor em que a cor preta formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar acerca das razões por que o peixe mudara de cor precisamente na hora em que o pintor assentava na sua fidelidade, ele pensou que, lá de dentro do aquário, o peixe, realizando o seu número de prestidigitação, pretendia fazer notar que existia apenas uma lei que abrange tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Essa lei seria a metamorfose. Compreendida a nova espécie de fidelidade, o artista pintou na sua tela um peixe amarelo.
(1963)
HELDER, Herberto, Vocação Animal. Lisboa: Publicações D. Quixote, 1971, p. 11-12.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Corte, quadro e fluido
Uma narrativa visual no centro histórico do Porto.
Caminhar pelas estreitas e pitorescas ruas do centro do Porto, olhando para cima, como o faz quem se interessa por sua arquitetura, permite descobrir as estranhas silhuetas resultantes da apreciação deste raro palimpsesto contra o fundo claro e homogêneo do céu.
Tal impressão foi a base para estabelecer o recorte pretendido da complexa trama desta zona da cidade.
Buscando evidenciar a importância das formas estriadas a se confrontar, optou-se por tratar as fotografias de modo a “esvaziá-la” de informações desnecessárias, as cores foram eliminadas, o contraste acentuado e o céu clareado até desaparecer.
A
tomada de vista, organização e edição das imagens intentam registrar e
transmitir a experiência de deixar-se perder no interior deste tecido denso, encaracolado
e até claustrofóbico, quando as edificações inclinam-se ou se fecham sobre o
expectador, mas também não deixa de surpreendê-lo com inusitados enquadramentos
de monumentos históricos ou mesmo de singelas cenas cotidianas.
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