sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Devaneio # 37


O porto, 14-12-11 

 [Sem nada a perder.]
Ontem numa conversa declarei que vim para a Europa buscar a guerra...

[O que me motiva a fazer qualquer coisa?]
Percebo minha pulsão por revolucionar vários padrões que me parecem mais estabilizados pela qualidade efêmera do domínio de seus agentes e usuários que consolidados por positividades cultivadas por suas virtudes, entretanto sou ao mesmo tempo vitima de uma sensível impossibilidade em operar progressivamente as possibilidades destes padrões sem obrigar-me, a muito contra gosto, por uma atuação disciplinadora, dicotômica e antitética, mas também ambígua e contraditória.

[Inevitavelmente condenado ao fracasso, o projeto sou eu.]
A vontade de virtude, de solucionar confrontos e emparelhamentos notados e propostos pela percepção e apropriação da paisagem, passa e surge por pontos críticos da própria postura no território. Não se trata de uma moldagem ativa ou passiva à maneira do indivíduo e de outrem, de criar e buscar uma doutrina que reforce ou coíba suas ações. No fim, visto de longe num plano achatado, trata-se de esboçar percursos num espaço entre os extremos de uma espectral e monstruosa dimensão social e seu inverso sublime e perverso,  respectivamente a paixão e o vício como mais radicais formas de transcendência e descontrole emocional.

[Insuportável – Crucial – Crítico]
Posso ver uma massa disforme preenchendo lacunas vazias de forma a transformar a percepção de cada lugar. Por vezes é um esforço um tanto disciplinador, ver zonas cheias e vazias, claras e escuras, permitidas e proibidas... Mas se pretende desde o princípio uma disciplina avessa a imposta pela rotina compartimentada do imperativo consumidor.

domingo, 16 de janeiro de 2011

there are worse things than
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it's too late
and there's nothing worse
than
too late.

H. C. Bukowski, ô cara.

sábado, 1 de janeiro de 2011

010100400191595


Há quem lute visceralmente pela posse de verdades que, queira ou não, brevemente lhe escaparão pelas mãos. Penso numas quantas certezas, questões e desejos ilegítimos relacionados ao ego que, paranoicamente, a dimensão social impõe ao indivíduo, que ainda o consumo e a propaganda distorcem e proliferam incessantemente. Por estes, o que é irrefutável num instante não tarda a tornar-se dúbio e cair por terra logo que uma novidade que se oponha, por mais efêmera que se apresente, passe a integrar os parâmetros da análise ou mesmo os supere por completo.

Seguindo a lógica, porque concentrar-se em aspectos tão voláteis quanto erráticos, como os sociais e mercadológicos, para orientar nossos devires? Neste ponto Nietzsche colabora extrapolando as motivações e efeitos do entendimento desta questão em um de seus aforismos escritos em Para além do bem e do mal:

“Uma coisa que se esclarece deixa de nos interessar. - Que queria dizer o deus que aconselhou: "Conhece a ti mesmo"? Isto significava talvez: "Deixa de interessar-te por ti! Torna-te objetivo!"- E Sócrates? - E o homem científico?”

Imagino que o velho Fritz conheça o substrato lascivo do pântano em que se embrenhará exaustivamente, à custa de sua plena e positiva evolução, aquele que dedicar-se a busca de respostas genuinamente interiores para explicar seu desconforto em confrontar aquilo que, segundo a portentosa moral da vontade de poder, deveria ser regra inata e inquestionável, virtudes intrínsecas e naturais da espécie humana. No entanto questiona a conotação negativa, de egoísta ou egocêntrico, que normalmente recebe o comportamento introspectivo quando contrapõe a pratica diligente destas virtudes, que tantas vezes foram, e continuarão sendo, descontextualizadas e recorrentemente impostas de modo indevido como compaixão autômata, ou ainda, servidão direcionadas ao socious, buscando nada além da inércia e manutenção da ordem, opondo a tal determinismo jornadas verdadeiramente louváveis que se direcionaram neste sentido.

Mas além, vivemos numa época diferente daquela, caracterizada por entre outros aspectos, a exuberante sedução da propaganda, a quantidade e velocidade dos fluxos de informação e a contínua expansão e dinamização das redes sociais. Uma amostragem empírica ilustra como todas estas dimensões, em constante movimento e transformação quase sempre orquestrados pelo capital, geram um quadro de insegurança cada vez maior e menos solucionável, coibindo progressivamente o pensamento próprio em oposição à idéia do que, convenientemente num dado momento, é postulado como natural.

Tal estado, embora induza-nos a pensar assim por seu impressionante alcance e amplitude, não me parece ter sido um evento deliberadamente construído, por um país, uma seita, um conglomerado de corporações ou qualquer espécie de poder centralizado, mas sim resultar do acúmulo de inúmeros estímulos de diversas fontes. As grandes instituições colaboram grandemente superpovoando o universo simbólico possível com novíssimos ícones e significados sempre presentes em suas propagandas, campanhas religiosas, tão numerosas e sucessivas quanto efêmeras febres e modas inventadas pelas mass-mídia, o estado de tensão criado pela mistificação e multiplicação das dimensões da violência e do terrorismo, dentre outros.Convém, no entanto, recordar que no fim da cadeia, no lado receptor, somos nós a alimentar a mídia e por mais impressionáveis e acostumados a engolir tudo o que ela nos serve processado e enlatado, podemos ou não selecionar e reforçar o que consumimos. Pode parecer uma luta desigual, mas cabe aqui lembrar um conceito de Guattari sobre o efeito de subjetividade coletiva em que explica, enfatizando toda a aleatória e ininterrupta sorte de estímulos que recebemos, como várias pessoas isoladas em distintos lugares, com diferentes vivências e concepções, obtêm soluções equivalentes para seus problemas ou dilemas, construindo desejos, perguntas e pensamentos estranhamente semelhantes.

Sem me alongar desnecessariamente, penso ser tão difícil quanto fundamental formular, dentro das possibilidades, a pergunta mais lógica, conveniente, satisfatória e produtiva. Por outro lado, passada a pequena prostração em não realizar o que momentaneamente lhe toma toda a atenção e aspirações, seja por meio de técnicas de comunicação ou apelações fenomenológicas genéricas, esquivar-se das oportunidades e atrativos, inoportunos e inúteis ,que cruzamos em qualquer busca, parece ao contrário bastante fácil e coerente.

...

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Raven Land's Rebirth...

Chers amis,

aqui está para começar mais uma etapa de atualizações do RAVEN LAND!

Gostaria de iniciar com um FELIZ NATAL e um "Seja SOLIDÁRIO e CORDIAL com o PRÓXIMO SOMENTE nos dias festivos do ano, de preferência se forem referentes a algum DOGMA imposto pela FALTA de RACIOCÍNIO"!

^^

C'est un bon début.

domingo, 25 de julho de 2010

O silencio de uma eternidade

Um texto escrito há algumas semanas, logo que cheguei a Goiânia... Não é muito conclusivo, mas nunca o pretendeu ser. Estava angustiado pela falta de escrever...

Será a redundância a realização plena de qualquer potencial?¹

Um bom desenhista o seria apenas por crer em sua capacidade? Sua autoconfiança seria suficientemente convincente a ponto de ludibriar outrem com sua habilidade porvir?

Muitas vezes se ouve dizer que o trabalho e a prática são os responsáveis por refinar e aperfeiçoar, construir, portanto o sentido dos esforços realizados... Mas como seria possível praticar algo que não se pretende ser construído seguindo um modelo, mas sim causado espontâneo e naturalmente a partir de um problema específico qualquer?² Nesta análise poderia chamar de problema, por exemplo, o desanimo causado pela percepção da limitação técnica verificada ao se experimentar velhos hábitos? Ou seria problema maior e mais recompensador considerar o próprio tema da fixação egoísta de considerar apenas questões ligadas ao EU?

Busco então o suficientemente importante, interessante e proveitoso para desenvolver meus esforços, e eis que mais dúvidas surgem...

Uma vez atrofiada pela falta de prática, não seria absolutamente limitante a capacidade de transitar em tantos campos da percepção quantos o problema vislumbrado se espalhe? Quem dirá os descrever ou ainda desenvolver?

Ocorre-me que de qualquer forma tudo pode ser reescrito, mas não sem ser repensado, portanto conduzido a outro lugar no fim. Concluo que ir além deste desejo, de ser conduzido a algum outro fim, é de fato impossível agora. Tampouco é desejável permanecer aqui.

Problematizar a imposição de sentido, por exemplo, é um grande passo para qualquer um que não tenha ferramentas e práticas bem afiadas, e seus esforços mais empenhados seriam básicos e superficiais se comparadas a qualquer literatura básica sobre o tema. Poderia dizer num estágio “embrionário” em que o sentido de tal ensaio conformar-se-ia de modo a se converter absolutamente pertencente ao conjunto de conceitos que a idéia previamente desenvolvida constitui.

Focalizemos o pensamento embrionário como uma anedota, ele é inacabado, comovente como um bebê e tem a ilusão ou esperança de um devir. Uma vez lançada, a idéia embrionária sempre toma a forma estabelecida daquilo que a influencia. Ou seja, ela é mutante. Mas é quando a idéia embrionária começa a caminhar que adquire novos contornos, é aí que reside a capacidade de progredir em relação à forma de sua influencia primária, a possibilidade de inclusão de novas influencias de modo a registrar cada uma nova nuance e forma na idéia em produção.

Penso ainda em reprodução...

1 - Enxergo o potencial claramente como uma idealização platônica de alguma capacidade, portanto alcançá-la de fato não compreende contribuir construtivamente naquele campo em que se pretende atuar, mas sim conformar seu talento a uma mera imagem prévia e preestabelecida daquilo que todos supostamente acreditam, muito embora ninguém tenha presenciado um tempo em que tal idéia não fosse estabelecida.

2 - O uso do cânone moderno do funcionalismo, de que tudo segue sua função, a solução do problema, não pretende aqui ser utilizado como uníssona característica, limitante, do esforço realizado.

domingo, 27 de setembro de 2009

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

"Anão vestido de palhaço mata oito"

A viajem de volta pra Tucuruí estava tranquila, boa demais pra ser verdade. Comi uma cochinha de rodoviária bem engordurada, bebi uma lata de skin bem geladinha. Havia comprado uma carteira de Black, sabor canela, e fumado dois antes que o ônibus partisse de Marabá. Era noite paraense, negra como os cabelos das nativas, quando o céu limpo é ofuscado pelas luzes da cidade, e não podemos ver as estrelas. Um cara gago sentado do meu lado havia me mostrado uns livros de teologia protestante. Afinal senti um alívio; não, não flatulei. Desde o início da viajem que já durava quase dois dias, não haviamos trocado um oi. Me sinto meio desumano às vezes, e me senti quando o vi tentando tocar nalgum assunto, sutilmente. Na tarde do dia anterior, eu estava meio lezado ainda do que havia fumado antes de viajar, fui bastante lacônico com ele. Sua própria gaguice pareceu contrangê-lo, e meu manancial cristão de atitudes virtuosas estava seco, então continuei curtindo aquela sensação boa sozinho. Pois bem, depois de sairmos de Belém, começamos a conversar sobre religião, e descobri nele um entusiasta no assunto, tanto quanto eu sou com o ocultismo, que, afinal de contas, permeia todas as religiões. Falamos sobre anjos, santos e o "fim dos dias", e eu folheei uns livros interessantes dele. Estávamos há poucas cidadelas de tucuruí, quando eu cochilei. Acordei com um som de tiro e pensei ter sido o pneu estourando, quando senti o cheiro de pólvora.
-Pára êz ônibus! Pó pará! Cê qué morrê maluco?
Fiquei confuso, não diria pasmo, mas já desanimado com o que sabia que estava acontecendo, e, realmente, muito emputecido o que eu sabia que iria acontecer. Aquela frase tão usada pelos adultos quando seus adolescentes violam algo ou praticam tal irregularidade, sempre o mesmo jargão: "você pode pensar 'nunca acontecerá comigo' jovenzinho", achando que não oníricos, em suas posições de responsáveis pelos rebentos, "nunca acontecerá comigo". Eu pensei na hora, "logo comigo...". Bem, levei tudu na esportiva. O cheiro de brau que eles exalavam era muito forte, todos os cinco ou seis ladrõezinhoas. Logo vi que estavam muito doidões. Pareciam ter vindo de uma plantação clandestina de Goianésia ou El Dorado dos Carajá, citadelas "fim do mundo", no melhor estilo Mad Max, e com as melhores risadas também. Isso mesmo, eu até posso ouví-los, Thiago, Saimon, Pastor, foi uma onda errada, como diria Plínio... Que onda!
-Todo mundo pru fundão! Todo mundo!-gritavam enquanto entravam pela porta do ônibus -Mãos pra cima! E os espertin leva bala!-disse um dos criminosos, um muleque bem baichinho; aliás, todos eram bem novos e magrinhos, vozes finas de mancebos.
-Relógis, celulá e anéu, aqui no saco!-disse um, enquanto outros três nos apontavam com pistolas-Colaris tamém!
Bem, tenho que admitir, não gosto de falar nesse assunto, por mais que seja podreira, e por mais que eu ame podreiras... Há um mês estou refazendo meus documentos perdidos. Um teclado da yamaha novo em folha, um celular bacaninha que eu usava pra tirar fotos, dei adeus. Porra! Estava começando um hobby bacana tirando fotos com ele... Bem, depois fomos encaminhados pelos ladrões a sairmos. Onde estávamos eu não fazia idéia de como fomos parar. Era uma estrada de terra no meio do mato, bastante alto, entre rochedos arbustivos. Depois fui ficar sabendo que eles ameaçaram o motorista com uma arma se não saíssem da rodovia, aos gritos, montados em motos. Todos em pé, iluminados pelo farol do ônibus, soubemos que estávamos realmente fudidos. Jogamos nossas carteiras, nossos sapatos, no meu caso, fiquei de hawaiana, até a hora em que um deles se simpatizou com ela.
-Óia só gente! O malandro escondeu cem conto no tênis!-gritou um dos ladrões ao pegar os sapatos de um velho. Todos gatunos riram.
Ficamos em pé com as mãos na cabeça por um tempo difícil de precisar, observando tudu. Uns em estado de choque, outros com um olhar distante. Eu, vendo isto tudu da maneira lúcida que os insanos vêem, fiquei vendo qual passageiro iria começar a tremer primeiro. O pobre motorista devia estar cansado, pois suas pernas pareciam bengalas de bambú sob o apoio trêmulo de um velhinho com hipotermia. Uma mulher chorava desesperada com um bebê no colo. Alguém tinha de apelar pra dramaticidade! Tudu bem, sei que não era chantagem, mas mesmo assim, não estava dando certo. Foi então que pegaram as malas.
-E essa aqui? De quem é?-perguntou um dos ladrões, parecia ser o mais velho, devia ter seus 19 anos.
-É minha.
-Cadê a chave doido?
-Tá lá em cima, no ônibus.
-Corre lá e pega.
Fui pegar, pensando em loucuras, como bater num dos capangas que foi comigo, baichinho e de olhos arregalados. Parecia ser a sua primeira vez. Procurei a chave, vi que deviam tê-la levado, pois estava presa no celular. Continuei procurando, pra parecer mais óbvio aos símios que realmente não estava lá. O rapazola era assim esguio e fracote, realmente me deu ganas de lhe tomar a arma. Mas eu estava tão calmo, estava tão tranquilo comigo mesmo, estava atribuindo a tranquilidade à minha fé... Bem, fé demais fede. Desci pra estrada novamente.
-Não tava lá, um de vocês a pegou por engano com meu celular.
-Num tem coisa valiosa aê dentro, não, né doido?
-Tem não, bixu! Tu não quer estourar esse cadiado, não? Dá um tiro aê.
-Rapá, tu não vai me fazer gastar uma bala. O que qui tem aê?
Fiquei com vergonha de dizer. Quando fiz as malas, estava tão doido que soquei minhas roupas, alguns documentos e meus allstar como se fossem lixo, e fechei o cadeado. Estava doido, e atrasado pro embarque.
-Bixu, só tem meu allstar e umas roupas.-na verdade eu não me lembrava muito bem o que realmente tinha.
-Beleza...
Depois fizeram um acordo de o motorista esperar meia hora até sair. Ao sairem, um diálogo simples descreve a cena.
-Meu jovem, você tem fogo?-perguntou um velhinho, tirei o fósforo do bolso-Obrigado!-e acendeu um cigarro.
-Hey, você tem cigarro?-perguntou uma jovem, dei dois, um a ela e outro à amiga-Obrigado!
-Aceita?-ofereci um cigarro ao motorista, quando o vi com o olhar perdido pro ônibus.
-Obrigado.
Todos fumando pra relaxar, foi hilário. Alguns sacaram seus próprios isqueiros, outros seus baratos derbys. Bem, pelo menos eu estava com meu Black. Descalço, suado e com os pés de todd mais horríveis que um goiano pode ter... Mas estava fumando Black! Grande merda, hein. O tiro, fui ver ao subir no ôinibus, atravessara o vidro das poltronas da frente, onde eu estava sentado. Pegou bem acima de nossas cabeças, da minha e da do gago. Com um pouco de sorte, acertou meu teclado, que estava encaixado num compartimento sobre nossas cabeças. Assim espero... Malditos.

Au revoir