a liberdade poética será sempre o ópio, o ócio criativo e a panacéia da cura, entre artistas, loucos e filósofos... por isso mesmo, as cores que essa liberdade dá com os pincéis da metáfora fazem essa miséria e essa riqueza oscilantes dentro dos seres parecer natural... mas perceber a beleza nisso que aparentemente não é natural, e na verdade, parece mais traço de neurose, ou psicose -neste caso, há de ser forçar a exercícios de meditação, uso de enteógenos, investigações internas das partes obscuras, sem medo ou tabus - certa dose de entrega e loucura na busca de sí mesmo... "conhece a ti mesmo, e conhecerás os deuses e o universo". É a minha disney pessoal, meu ópio existencial, meu placebo teológico, todo o manancial exotérico de uma vida... my precious... mea culpa...
terça-feira, 2 de fevereiro de 2021
sábado, 11 de julho de 2020
.
Qualquer memória da juventude cabe em um gole de uma cachaça envelhecida fabricada em Paraty. Primeiro, sirva-se de uma dose em um pequeno e
confortável copo. Observe o líquido, sua tensão superficial, seu aroma, note
uma pequena mancha afastada das bordas que tocam as paredes do copo. Fique um
minuto em silêncio e olhe o sol, onde quer que esteja, precisará dele. Perceba
onde você está. Considere os pontos cardeais e a referência solar, sinta a
distância estendida daí até os lugares em que já esteve e foi feliz. Volte-se na
direção e sentido de um lugar em que suas memórias afetivas lhe tocam fortemente.
Leve o copo à boca e sugue apenas uma pequena quantidade, segurando este mínimo
gole por um segundo entre a língua e o palato. Inspire e engula de olhos
fechados. Ainda no escuro, enquanto se abre o sabor da cachaça e é possível
sentir desenvolver-se a leve dormência nos lábios, na garganta e no topo da
língua, bem ali, poderá acessar um bocado de cenas que certamente vão lhe
surgir. Desfrute, nomeie-as, lembre as pessoas e um pouco do contexto envolvido,
deixe-se levar pelo texto narrativo que começará a falar dentro da sua cabeça e
reviva um pouco aquilo tudo, antes que o som ao redor lhe traga de volta ao
presente. Perceba o retro gosto fantástico dessa cachaça.
quarta-feira, 13 de maio de 2020
domingo, 12 de abril de 2020
Hiato em três vozes
O
indivíduo é miserável quando tem a obrigação inexorável de
produzir. E isto não é uma questão inscrita na oposição
politico-partidária inescapável aos anos 10 e 20 do vigésimo
primeiro século da história ocidental. Apelo à experiencia pessoal: Frustrações. Em construções coletivas, linhas de
pensamento errantes em busca incerta por iluminação no devir do
percurso, com efeito, tem sempre menos valor que sólidas e assertivas colocações claras, tradicionais e lapidares. Em
processos criativos isso deveria ser a morte um retumbante contrassenso.
Um texto é sempre fragmento da biografia do autor. Contudo,
limitar-se a usar referências pessoais é deselegante e denuncia uma
percepção limitada a própria imediação, e assim, perigosamente inócua. Melhor seria relativizar conclusões de
análises particulares, segmentadas e parciais sobre a própria
vivência. O humano é um prisioneiro das aparências. Para conceder um envólucro científico a pequenos ensaios, estabelecendo premissas consistentes, talvez fosse
necessário concordar que a capacidade cognitiva,
embora limitada a extensão do raio atingido por nosso olhar, é potencializada
em movimento, ao se ampliar a varredura da paisagem a medida em que
ela é desbravada. Ocultar as evidências incultas do orador, emulando com pedantismo o ar e o aspecto do intelectual. Uma boa e oportuna metáfora, de modo simples, amplia o universo da experiência pessoal, infla o estofo de uma argumentação. Máquinas, lavadeiras, mendigos, corvos e florestas - mecanismos para observar nossa própria vivência de um lugar possivelmente novo, completamente débil, mas privilegiado apenas pela mira enviesada. "Sua fraqueza é também a sua força." Todo o esforço de construir ideias embrionárias em termos compreensíveis e compartilháveis é lícito, mas deixa sempre vestígios rastreáveis pelo olfato. O cão caçador não pensa em muito mais que encontrar sua presa, sequer considera assassiná-la, mas a segue impiedosamente, farejar é sua mortífera compulsão. Ilumina-se, surpreendentemente, uma pista. Corremos como um cão que também é presa. Locomover-se adquire um duplo valor.
(Hiato)
Voltemos a primeira afirmação deste texto, já parece mais e mais correta. O encadeamento antagônico de miséria e valor, num mesmo corpo vivo, não é natural. Sinto tais tensões em meus músculos.
segunda-feira, 31 de março de 2014
Pessoas com uma mentalidade desbravadora e divertida como a tua e a do Saimon, eu espero ter por perto até as últimas etapas de oxidação destas células adubadas pelo fast food.
Demorei para poder amadurecer a ponto de conseguir retornar ao caminho da evolução emocional, aquele que nos torna pessoas queridas e procuradas pela simpatia que exercem, e por isto mesmo, pela empatia que dominam.
Mais uma vez, com a chantagem emocional que me é característica, eu lhe mando lembranças saudosas de quem possui um caráter tendencioso, mas que foi atenuado em sua natureza bélica por pessoas como você, o pastor, Saimon, Lenon, e demais camaradas cujos determinismos sincronizaram com o meu em determinados momentos.
Para ter uma perspectiva de futuro sendo chamado de tio pelos filhos do Saimon, e quiça seus, se os tiver, estou saindo daquela minha condiçao patologica de desempregado, meu caro.
Estou estagiando, faz três meses, como arte finalista em uma agência de publicidade, ajudando(quando posso) a produzir alguma arte conceitual, coisa que fui internalizar de forma completa aqui na propaganda. Arte conceitual, para mim, eram aqueles panfletos do construtivismo russo, e era só... bem, até as topeiras veem a luz, afinal, por vezes, cavam seus buracos para cima.
Mas na maioria das vezes apenas finalizo os anuncios, panfletos e folderes em seus devidos formatos.
Esta sendo prazeiroso.
Gostaria de algumas linhas com notícias suas.
Grande abraço!
Demorei para poder amadurecer a ponto de conseguir retornar ao caminho da evolução emocional, aquele que nos torna pessoas queridas e procuradas pela simpatia que exercem, e por isto mesmo, pela empatia que dominam.
Mais uma vez, com a chantagem emocional que me é característica, eu lhe mando lembranças saudosas de quem possui um caráter tendencioso, mas que foi atenuado em sua natureza bélica por pessoas como você, o pastor, Saimon, Lenon, e demais camaradas cujos determinismos sincronizaram com o meu em determinados momentos.
Para ter uma perspectiva de futuro sendo chamado de tio pelos filhos do Saimon, e quiça seus, se os tiver, estou saindo daquela minha condiçao patologica de desempregado, meu caro.
Estou estagiando, faz três meses, como arte finalista em uma agência de publicidade, ajudando(quando posso) a produzir alguma arte conceitual, coisa que fui internalizar de forma completa aqui na propaganda. Arte conceitual, para mim, eram aqueles panfletos do construtivismo russo, e era só... bem, até as topeiras veem a luz, afinal, por vezes, cavam seus buracos para cima.
Mas na maioria das vezes apenas finalizo os anuncios, panfletos e folderes em seus devidos formatos.
Esta sendo prazeiroso.
Gostaria de algumas linhas com notícias suas.
Grande abraço!
quarta-feira, 26 de março de 2014
quinta-feira, 4 de abril de 2013
O Corvo
- Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais. - É só isto, e nada mais."
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais, - Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais. - É só isto, e nada mais".
E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais. - Noite, noite e nada mais.
A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais. - Isso só e nada mais.
Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais. - "É o vento, e nada mais."
Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais, - Foi, pousou, e nada mais.
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais." - Disse o corvo, "Nunca mais".
Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais, - Com o nome "Nunca mais".
Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais". - Disse o corvo, "Nunca mais".
A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais - Era este "Nunca mais".
Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais, - Com aquele "Nunca mais".
Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais, - Reclinar-se-á nunca mais!
Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!" - Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais! - Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!" - Disse o corvo, "Nunca mais".
"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!" - Disse o corvo, "Nunca mais".
E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais, - Libertar-se-á... nunca mais!
- (Edgar Allan Poe - Tradução de Fernando Pessoa)
- Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Assinar:
Postagens (Atom)




